quinta-feira, 10 de maio de 2012

COMO A IGREJA PODE SER FONTE DE ESPIRITUALIDADE? O QUE ELA APRESENTA COM SUA VIDA?


Para responder a esta pergunta, podemos partir inicialmente da última parte da pergunta, sobre a “Vida da Igreja”, melhor ainda, a “Vida na Igreja”. Espiritualidade, no seu sentido existencial, é algo proeminente do ato de ser humano de cada pessoa, que pensa e age. Por isso, partir do princípio de que a Igreja seja Fonte de espiritualidade para o cristão, é pensar a Igreja como entidade viva no mundo e com o mundo. Tantas e quantas vezes, percebemos pessoas que dizem ser a Igreja nada mais, ou nada menos, que uma instituição humana, e que a mesma está fadada a um dia sucumbir do decorrer da História da Humanidade. Frente a essa situação, emerge a necessidade de que tal Instituição tem de se firmar na realidade vivida de cada ser humano, no cotidiano do mundo, fazendo resplandecer o seu projeto e sua atividade na História.
Não se pode pensar a Vida da Igreja sem levarem-se em consideração alguns elementos vitais, como a Palavra de Deus, tanto presente na Bíblia, quanto no Magistério da Igreja, os quais revelam a presença total e plena de Deus na realidade histórica. Cito também a Missão da Igreja nas mais diversas situações cotidianas nas quais se encontra inserida (dentro dos cinco continentes e nos 194 países, além dos mais 50 territórios ainda não independentes). Dentro dessa perspectiva, perscruta-se o sinal de que a Igreja deve ser Sacramento Universal de Salvação para a Humanidade. E, por fim, a Igreja é o Mistério de Deus, que se revela em Jesus Cristo, por meio de sua encarnação.
A Vida da Igreja tem seu sentido e existência na multiplicidade de carismas, ministérios e funções, expressas das mais diversas formas por Sacerdotes, Irmãs(ãos) Consagradas(dos), Leigos(as), nas inúmeras funções que realizam dentro da sociedade contemporânea, levando com sua vida e testemunho a luz de seus carismas. Não se pode pensar um ministério desconexo da vida cotidiana, ele é todo imerso nela, buscando significar-se e dar sentido para as atividades diárias. A função do cristão católico, não se resume a apenas ir à Igreja, nas missas, rezar e jejuar. Isto faz parte intrínseca de sua vida, mas perde todo seu significado se não servir para dar sentido à vida da pessoa. São Tiago é uma luz para nossa espiritualidade dentro da Igreja: “a fé: se não se traduz em ações, por si só é morta” (2,17). Mas, não podemos ficar tentados apenas a fazer coisas e deixar a fé de lado, “é necessário para vós nascer do alto [Espírito]” (Jo 3,7). A fé em Cristo nos chama a uma vida nova, a um novo comprometimento com a própria vida humana, não aceitando dicotomias e extremismos, pois ambos são condenáveis, dentro da ótica cristã.
A Igreja, no decorrer de sua história foi criando uma estrutura social, por estar dentro da sociedade, e como tal tem permanecido por muitos séculos. Esta forma de organização emerge de uma construção humana da Instituição Igreja, mas ela quer revelar a ideia de uma forma possível de ser administrada. Inúmeras críticas são lançadas a sua estrutura ‘hierárquica’, mas não são de todo em vão, pois há uma constante necessidade de pensar o ideal de ‘comunhão’ dentro desta estrutura. Pois, tantas e quantas vezes, visivelmente têm-se aqueles que compõem a “Estrutura Hierárquica da Igreja”, realizarem mandos e desmandos, por ordem do poder político-religioso-estrutural-temporal que possuem, e esquecem que todo seu poder emana do Serviço, os quais deveriam fazê-lo (podemos lembrar rapidamente do Lava-pés) de forma gratuita e humilde. Ou ainda, temos aqueles que a guisa da Comunhão, esquecem do princípio da Obediência, e não poucas vezes, levam inúmeras pessoas a terem uma visão desvirtuada do ser Igreja, envolvidas apenas com causas sociais, desalmadas de qualquer sentimento de fé, desempenhando nada mais do que uma ação política.
As Sagradas Escrituras e o Magistério da Igreja quando, na fidelidade do seguimento de Cristo, anunciam e denunciam, proclamando a Boa-Nova da Libertação do Homem e a plenificação de sua existência durante a Vida temporal, numa dimensão de fé consciente e livre cumprem com sua missão. O Serviço da Igreja é buscar que todo homem alcance condições dignas de vida e sua salvação esteja garantida de forma a transcender a realidade temporal (desde o corpo/alma até o espírito – Isto é Antropologia Transcendental) e pessoal (desde o eu até o outro – você/ele). O Sacramento Universal de Salvação é que toda a humanidade seja congregada numa mesma fé, num mesmo amor, num mesmo Deus, porém que haja o respeito e a liberdade de crença, onde reside o fato de que todo ser humano pode encontrar a Deus dentro de sua fé, sua crença. O Católico é aquele que concebe a toda a humanidade criada e querida por Deus, e como tal deve ser amada, respeitada e defendida.
A multiforme graça de Deus é o fato de que Ele age em tudo e em todos, onde se expressam os mais diversos dons e carismas, os quais são congregados todos em um só Espírito. Tudo o que a humanidade constrói de acordo com suas mais diversas funções devem sempre estar a serviço de todas as pessoas. Nossos dons, talentos e carismas, só tem significado se forem colocados à disposição dos outros, caso contrário, só servirão para atender aos nossos instintos egoístas e anticristãos. Toda a obra realizada em nome da Igreja deve ter em vista todas as pessoas que possam usufruir a mesma, não pode ser algo fechado que vise apenas o bem de um grupo, comunidade, movimento, pastoral, paróquia, diocese, congregação, etc... Se caso ocorrer de nossas obras estarem beneficiando mais a quem fomenta e menos quem é o objetivo da ação, está se caindo em uma situação de contradição e perda do carisma inicial, do amor que funda toda a nossa ação. Por vezes, somos tentados a dizer que precisamos pensar no futuro, mas precisamos lembrar: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). Esta perícope faz parte do que é conhecido por Sermão da Montanha, e no seu início fala sobre as aves dos céus e os lírios do campo, e lembra que a Providência de Deus jamais esquecerá as necessidades humanas e suscitará quem delas possa cuidar.
Por fim, é necessário lembrar que: “No Símbolo dos Apóstolos, fazemos profissão de crer uma Igreja Santa, e não na Igreja, para não confundir Deus e suas obras, e para atribuir claramente a bondade de Deus todos os dons que ele colocou na sua Igreja” (CIC, 750). A Igreja temporalmente pode não ser perfeita, mas sua finalidade é divina.

Por uma espiritualidade eclesial

É preciso lembrar que uma Espiritualidade equilibrada não pode limitar-se a liturgia, pois isso significaria menosprezar a plena eclesialidade da Igreja. Porém, afastar-se da liturgia é desconhecer o caráter escatológico da Igreja e optar pela realidade puramente material do mundo; A Liturgia é o momento privilegiado de comunhão e participação para a evangelização que conduz a libertação cristã integral e autentica. Ir a missa aos domingos e abster-se de carne nas sextas feira não faz penetrar a santidade no coração do mundo, quando faltamos a esse compromisso de santidade, que é nossa tarefa peculiar, estamos apagando os sinais destinados a criar a Igreja no coração do mundo;
A medida de nosso cristianismo e de nossa vida como Igreja, é sempre a autenticidade de nossa comunhão com os outros e de nosso amor ao próximo. É preciso lembrar que a nossa Igreja é Igreja no homem de Jesus Cristo. E a nossa espiritualidade de Igreja deve ser na pessoa de Jesus Cristo. A graça redentora de cristo é duplamente vista na Igreja: 1º lugar, de modo ministerial e institucional, no carisma do ministério hierárquico e 2º através da vida do povo de Deus vitalizado pela graça do espírito de Cristo. Cremos numa Igreja concreta, realmente existente, não numa Igreja abstrata e Ideal, mas na Igreja viva do Cristo, presença visível da graça entre nós, na qual existe também o pecado. Essa Igreja é o objeto de nossa fé.
A Igreja é por certo Santa. A Santidade é sua essência. E essa santidade não pode se tornar invisível senão o mundo mergulha nas trevas; A Igreja é a salvação em forma visível e é sinal repleto daquilo que significa. Os seus membros só podem pecar a medida em que se esquivam de seu influxo santificador.
Levar a presença da Igreja de Cristo entre os que são arrastados pela com certeza da vida, inspirando o desejo de salvação, possibilitando-lhes a abertura para a fé. Uma espiritualidade da Igreja deve fazer brilhar pelos seus membros um raio de amor desinteressado num mundo que é explorador. Uma espiritualidade que se diz da Igreja não deve estar a favor de um ou de outro sistema social. A Igreja visa Exclusivamente o homem e sobretudo ao homem marginalizado e despojado de sua dignidade e de seu prestigio. Não podendo ser entendida erroneamente como conflito ideológicos entre classes que se transformam em violência. A primeira condição é o amor de Jesus Cristo. É este amor que faz o Cristão.

A espiritualidade da Igreja é: de uma comunidade formada por aqueles que ouvem o chamado de Jesus a segui-lo, é uma comunidade aberta a uma missão universal. Esta Igreja é de Cristo. É construída sobre a rocha, ou fundamento, Pedro. Nessa Igreja todos são discípulos porque Cristo é o Único mestre do qual todos devem aprender. Nessa Igreja todos são irmãos, porque todos são filhos e filhas de um pai. Nela deves-se cuidar sobretudo dos pequenos porque são os que mais precisam de proteção. Deve-se viver a correção fraterna e o perdão incondicional.

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