Para
responder a esta pergunta, podemos partir inicialmente da última parte da
pergunta, sobre a “Vida da Igreja”, melhor ainda, a “Vida na Igreja”.
Espiritualidade, no seu sentido existencial, é algo proeminente do ato de ser
humano de cada pessoa, que pensa e age. Por isso, partir do princípio de que a
Igreja seja Fonte de espiritualidade para o cristão, é pensar a Igreja como
entidade viva no mundo e com o mundo. Tantas e quantas vezes, percebemos
pessoas que dizem ser a Igreja nada mais, ou nada menos, que uma instituição
humana, e que a mesma está fadada a um dia sucumbir do decorrer da História da
Humanidade. Frente a essa situação, emerge a necessidade de que tal Instituição
tem de se firmar na realidade vivida de cada ser humano, no cotidiano do mundo,
fazendo resplandecer o seu projeto e sua atividade na História.
Não
se pode pensar a Vida da Igreja sem levarem-se em consideração alguns elementos
vitais, como a Palavra de Deus, tanto presente na Bíblia, quanto no Magistério
da Igreja, os quais revelam a presença total e plena de Deus na realidade
histórica. Cito também a Missão da Igreja nas mais diversas situações
cotidianas nas quais se encontra inserida (dentro dos cinco continentes e nos
194 países, além dos mais 50 territórios ainda não independentes). Dentro dessa
perspectiva, perscruta-se o sinal de que a Igreja deve ser Sacramento Universal
de Salvação para a Humanidade. E, por fim, a Igreja é o Mistério de Deus, que
se revela em Jesus Cristo, por meio de sua encarnação.
A
Vida da Igreja tem seu sentido e existência na multiplicidade de carismas,
ministérios e funções, expressas das mais diversas formas por Sacerdotes,
Irmãs(ãos) Consagradas(dos), Leigos(as), nas inúmeras funções que realizam
dentro da sociedade contemporânea, levando com sua vida e testemunho a luz de
seus carismas. Não se pode pensar um ministério desconexo da vida cotidiana,
ele é todo imerso nela, buscando significar-se e dar sentido para as atividades
diárias. A função do cristão católico, não se resume a apenas ir à Igreja, nas
missas, rezar e jejuar. Isto faz parte intrínseca de sua vida, mas perde todo
seu significado se não servir para dar sentido à vida da pessoa. São Tiago é
uma luz para nossa espiritualidade dentro da Igreja: “a fé: se não se traduz em
ações, por si só é morta” (2,17). Mas, não podemos ficar tentados apenas a
fazer coisas e deixar a fé de lado, “é necessário para vós nascer do alto
[Espírito]” (Jo 3,7). A fé em Cristo nos chama a uma vida nova, a um novo
comprometimento com a própria vida humana, não aceitando dicotomias e
extremismos, pois ambos são condenáveis, dentro da ótica cristã.
A
Igreja, no decorrer de sua história foi criando uma estrutura social, por estar
dentro da sociedade, e como tal tem permanecido por muitos séculos. Esta forma
de organização emerge de uma construção humana da Instituição Igreja, mas ela
quer revelar a ideia de uma forma possível de ser administrada. Inúmeras
críticas são lançadas a sua estrutura ‘hierárquica’, mas não são de todo em
vão, pois há uma constante necessidade de pensar o ideal de ‘comunhão’ dentro
desta estrutura. Pois, tantas e quantas vezes, visivelmente têm-se aqueles que
compõem a “Estrutura Hierárquica da Igreja”, realizarem mandos e desmandos, por
ordem do poder político-religioso-estrutural-temporal que possuem, e esquecem
que todo seu poder emana do Serviço, os quais deveriam fazê-lo (podemos lembrar
rapidamente do Lava-pés) de forma gratuita e humilde. Ou ainda, temos aqueles
que a guisa da Comunhão, esquecem do princípio da Obediência, e não poucas
vezes, levam inúmeras pessoas a terem uma visão desvirtuada do ser Igreja,
envolvidas apenas com causas sociais, desalmadas de qualquer sentimento de fé,
desempenhando nada mais do que uma ação política.
As
Sagradas Escrituras e o Magistério da Igreja quando, na fidelidade do
seguimento de Cristo, anunciam e denunciam, proclamando a Boa-Nova da
Libertação do Homem e a plenificação de sua existência durante a Vida temporal,
numa dimensão de fé consciente e livre cumprem com sua missão. O Serviço da
Igreja é buscar que todo homem alcance condições dignas de vida e sua salvação
esteja garantida de forma a transcender a realidade temporal (desde o
corpo/alma até o espírito – Isto é Antropologia Transcendental) e pessoal
(desde o eu até o outro – você/ele). O Sacramento Universal de Salvação é que
toda a humanidade seja congregada numa mesma fé, num mesmo amor, num mesmo
Deus, porém que haja o respeito e a liberdade de crença, onde reside o fato de
que todo ser humano pode encontrar a Deus dentro de sua fé, sua crença. O
Católico é aquele que concebe a toda a humanidade criada e querida por Deus, e
como tal deve ser amada, respeitada e defendida.
A
multiforme graça de Deus é o fato de que Ele age em tudo e em todos, onde se
expressam os mais diversos dons e carismas, os quais são congregados todos em
um só Espírito. Tudo o que a humanidade constrói de acordo com suas mais diversas
funções devem sempre estar a serviço de todas as pessoas. Nossos dons, talentos
e carismas, só tem significado se forem colocados à disposição dos outros, caso
contrário, só servirão para atender aos nossos instintos egoístas e
anticristãos. Toda a obra realizada em nome da Igreja deve ter em vista todas
as pessoas que possam usufruir a mesma, não pode ser algo fechado que vise
apenas o bem de um grupo, comunidade, movimento, pastoral, paróquia, diocese,
congregação, etc... Se caso ocorrer de nossas obras estarem beneficiando mais a
quem fomenta e menos quem é o objetivo da ação, está se caindo em uma situação
de contradição e perda do carisma inicial, do amor que funda toda a nossa ação.
Por vezes, somos tentados a dizer que precisamos pensar no futuro, mas
precisamos lembrar: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça,
e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). Esta perícope
faz parte do que é conhecido por Sermão da Montanha, e no seu início fala sobre
as aves dos céus e os lírios do campo, e lembra que a Providência de Deus
jamais esquecerá as necessidades humanas e suscitará quem delas possa cuidar.
Por
fim, é necessário lembrar que: “No Símbolo dos Apóstolos, fazemos profissão de
crer uma Igreja Santa, e não na Igreja, para não confundir Deus e suas obras, e
para atribuir claramente a bondade de Deus todos os dons que ele colocou na sua
Igreja” (CIC, 750). A Igreja temporalmente pode não ser perfeita, mas sua
finalidade é divina.
Por
uma espiritualidade eclesial
É preciso lembrar que uma Espiritualidade equilibrada não pode limitar-se a liturgia, pois isso significaria menosprezar a plena eclesialidade da Igreja. Porém, afastar-se da liturgia é desconhecer o caráter escatológico da Igreja e optar pela realidade puramente material do mundo; A Liturgia é o momento privilegiado de comunhão e participação para a evangelização que conduz a libertação cristã integral e autentica. Ir a missa aos domingos e abster-se de carne nas sextas feira não faz penetrar a santidade no coração do mundo, quando faltamos a esse compromisso de santidade, que é nossa tarefa peculiar, estamos apagando os sinais destinados a criar a Igreja no coração do mundo;
A
medida de nosso cristianismo e de nossa vida como Igreja, é sempre a
autenticidade de nossa comunhão com os outros e de nosso amor ao próximo. É
preciso lembrar que a nossa Igreja é Igreja no homem de Jesus Cristo. E a nossa
espiritualidade de Igreja deve ser na pessoa de Jesus Cristo. A graça redentora
de cristo é duplamente vista na Igreja: 1º lugar, de modo ministerial e
institucional, no carisma do ministério hierárquico e 2º através da vida do
povo de Deus vitalizado pela graça do espírito de Cristo. Cremos numa Igreja
concreta, realmente existente, não numa Igreja abstrata e Ideal, mas na Igreja
viva do Cristo, presença visível da graça entre nós, na qual existe também o
pecado. Essa Igreja é o objeto de nossa fé.
A
Igreja é por certo Santa. A Santidade é sua essência. E essa santidade não pode
se tornar invisível senão o mundo mergulha nas trevas; A Igreja é a salvação em
forma visível e é sinal repleto daquilo que significa. Os seus membros só podem
pecar a medida em que se esquivam de seu influxo santificador.
Levar
a presença da Igreja de Cristo entre os que são arrastados pela com certeza da
vida, inspirando o desejo de salvação, possibilitando-lhes a abertura para a
fé. Uma espiritualidade da Igreja deve fazer brilhar pelos seus membros um raio
de amor desinteressado num mundo que é explorador. Uma espiritualidade que se
diz da Igreja não deve estar a favor de um ou de outro sistema social. A Igreja
visa Exclusivamente o homem e sobretudo ao homem marginalizado e despojado de
sua dignidade e de seu prestigio. Não podendo ser entendida erroneamente como
conflito ideológicos entre classes que se transformam em violência. A primeira
condição é o amor de Jesus Cristo. É este amor que faz o Cristão.
A
espiritualidade da Igreja é: de uma comunidade formada por aqueles que ouvem o
chamado de Jesus a segui-lo, é uma comunidade aberta a uma missão universal.
Esta Igreja é de Cristo. É construída sobre a rocha, ou fundamento, Pedro.
Nessa Igreja todos são discípulos porque Cristo é o Único mestre do qual todos
devem aprender. Nessa Igreja todos são irmãos, porque todos são filhos e filhas
de um pai. Nela deves-se cuidar sobretudo dos pequenos porque são os que mais
precisam de proteção. Deve-se viver a correção fraterna e o perdão
incondicional.
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